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Cinema e TVReview

Análise | Westworld – Temos um substituto para Game of Thrones

Com o sucesso avassalador de Game of Thrones chegando ao fim, muitos esperavam que a HBO canal continuasse na mesma balada, talvez até explorando outro trabalho do escritor George R.R. Martin. Não foi isso o que aconteceu, a Home Box Office abraçou o lado oposto da fantasia medieval, apostando suas fichas em uma obra de ficção científica de grande orçamento.

Aqui temos Westworld como um parque temático habitado por androides no Velho Oeste. Ali o visitante pode assumir o papel que quiser e interagir com todas aquelas máquinas que são praticamente humanas. Elas reagem com total naturalidade aos estímulos externos, assustando os visitantes mais inocentes com o seu realismo. Conseguem exprimir carinho, medo, desejo e amor, como uma pessoa comum. Claro, cada androide está preso ao seu roteiro, seja como herói ou vilão. Cabe ao visitante aproveitar o máximo de tudo isso.

Westworld-laboratorio

Todo o valor da obra é visto logo na sua abertura (belíssima, visivelmente inspirada pelo anime Ghost in the Shell) e nos nomes que ali aparecem. Além do elenco estelar, a produção carrega o peso da caneta de Jonathan Nolan (irmão e parceiro constante do diretor Christopher Nolan), que divide a tarefa de produção com J.J. Abrams, o queridinho de todos. Vale lembrar que a série é baseada no filme homônimo de 1973, escrito e dirigido por Michael Crichton, criador de Jurassic Park e muitas outras obras que discutem as consequências da interação do homem com a tecnologia.

Westworld - Sweetwater

Personagens

A história acompanha as interações no parque através de vários androides, entre eles Dolores Albernathy (Evan Rachel Wood), uma bela anfitriã que desperta a curiosidade de visitantes masculinos, mas que graças a um misterioso upgrade no sistema operacional dos anfitriões, começa a desenvolver uma curiosa autoconsciência. Maeve Millay (Thandie Newton, empolgadíssima), a chefe da casa de prostituição. Seja no sarcasmo do seu personagem, momentos de drama complexos ou questionamentos dentro de um texto inspirado do programa, a tela brilha sempre que ela aparece. Temos ainda Teddy Flood (James Marsden) o cowboy mocinho e o humano cheio de mistério o “Homem de Preto” (Ed Harris) veterano no parque e totalmente sádico com os androides.

Westworld Dolores e Teddy

Claro, o parque precisa de toda uma estrutura para funcionar, exatamente onde se passa boa parte dos acontecimentos. Temos aqui Robert Ford (Antony Hopkins), o criador e atual diretor de Westworld (é com que passamos grandes momentos descobrindo segredos do parque) e Bernard Lowe (Jeffrey Wright) chefe de programação dos anfitriões e braço direito de Ford.

História

A série é uma daquelas obras complexas de ficção científica que agradam os fãs em cheio. Há muito de tudo, sejam os robôs com questionamentos existenciais (e diariamente assassinados e abusados pelos visitantes), megacorporações sem escrúpulos, o velho sábio com toda a informação do mundo, o mocinho que quer salvar a garota e até aqueles que não querem nada além de sexo. É uma série com robôs, mas no final das contas falando sobre humanos.

Westworld-deposito

Jonathan Nolan disse que parte da inspiração para o programa surgiu da forma como jogadores de videogame interagem com os NPCs (os personagens não controláveis que encontramos/interagimos nos games. Muitas vezes abusamos deles por simplesmente não os vermos como coisas reais. Porém, o parque Westworld aumenta o nível, como nos colocando dentro do game e mostrando o dia a dia desses personagens/criaturas que para muitos de nós, não vale muita coisa.

Quem você seria em Westworld?

Como dito acima, o visitante pode assumir o papel que bem entender em Westworld. Ele pode vivenciar situações e sentir emoções legitimas, coisas não permitidas no mundo real. Seja descarregar uma arma em uma pessoa, roubar, abusar de homens e mulheres, participar de orgias ou ser o herói ovacionado por toda a cidade. Aqui entra um questionamento pessoal: Quem você seria em Westworld?

Westworld-Preto-Face

É curioso assistir o trabalho do diretor de narrativas, aquela pessoa que cria as histórias em que os visitantes possam interagir. Tudo é feito de forma analítica e com vários desdobramentos, tudo para que aquela simulação seja o mais real possível. Porém, logo no início da série é mostrada uma situação curiosa. Todo um roteiro primoroso de um assalto sendo posto em prática, os anfitriões agindo em massa com uma precisão cirúrgica e um discurso final digno de prêmios, tudo isso simplesmente arruinado por um visitante abobalhado que simplesmente mete um tiro na garganta do vilão no momento errado. Os robôs seriam uma conta perfeita, o humano, simplesmente uma variável inconveniente.

Questionamentos

O final explosivo dessa primeira temporada de Westworld não abre muito espaço para o que vai acontecer na segunda. O final é direto, objetivo e culposo, reforçando uma citação que Ford utiliza várias vezes durante a série: esses delitos violentos possuem fins violentos, que por si só tem a sua origem em outra história trágica: Romeu e Julieta de William Shakespeare.

Westworld-Ford-Face

Os questionamentos levantados pelos episódios vão ficar na mente dos mais atentos. São perguntas sérias em tempos em que pensamos em inteligência artificial, androides, assistentes pessoais e interações em mundos virtuais. Os personagens direta ou indiretamente nos deixam com uma pulga na orelha com suas falas e ações. Seja o diretor Robert Ford com “se você pudesse assumir o papel de deus, mesmo que perante uma matilha de cães, você hesitaria em assumir esse papel? ” ou mesmo algo mais individual.

Perguntas: 1. Como trataríamos aqueles personagens, mesmo sabendo que não são pessoas de verdade, mas que dentro dos seus contextos sentem dor e sofrimento. 2. Aquele sofrimento – como dor e sofrimento em si, é em algum nível diferente de um ser humano quando vive algo semelhante? São questionamentos corriqueiros nos episódios de Westworld, algo que salta da tela diretamente para a sua cabeça. Nos resta esperar ansiosamente pela segunda temporada.

Tags : Ghost in the ShellHBOSérie de TVWestworld
Thomaz Maioline

O autor Thomaz Maioline

Leitor de ficção cinetífica, hi-tech afficionado, fã de Seinfeld. Fanático com música, livros e quadrinhos. Caçador de barganhas.