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Cinema e TVReview

Review | O Homem do Castelo Alto – Temporada 1

O Homem do Castelo Alto - Abertura
O Homem do Castelo Alto – Amazon Studios

O Homem do Castelo Alto é uma série distópica baseada no livro homónimo de Philip K. Dick, autor famoso entre os fãs de ficção científica, tendo várias de suas obras adaptadas para o cinema, entre elas O Vingador do Futuro, Minority Report, Agentes do Destino e claro: Blade Runner. A obra original venceu o Hugo de 1963 como melhor livro e a série pode ser considerada o primeiro grande investimento da Amazon no mercado de streaming, através do selo Amazon Studios. Mesmo tomando uma série de liberdades da obra original, o resultado final é bem animador.

A própria abertura, “Eldelweiss” já prepara o espectador para o que está por vir. Com sutileza extrema, são exibidas sombras de paraquedistas nos rostos dos presidentes no Monte Rushmore, simbolizando o choro dos Pais Fundadores durante a invasão do país.

O Mundo

Nessa realidade alternativa, estamos em 1962, quinze anos após o fim da Segunda Guerra Mundial que teve a Alemanha Nazista e o Japão como os grandes vencedores. Uma bomba atômica foi lançada em Washington DC, dando início a invasão da América. Temos aqui um Estados Unidos dividido em três partes, com a costa Leste conhecida agora como “O Grande Reich Nazista”, a costa oeste como “Estados Japoneses do Pacífico” e a Zona Neutra – um espaço sem leis que serve como amortecedor entre as duas potencias.

Enquanto personagens urbanos se envolvem com grupos de resistência, os de alto escalão mostram as questões políticas desse mundo, onde muitos alemães veem como errada a decisão de Hitler de ceder parte dos Estados Unidos para o Japão. Com a saúde do Führer se deteriorando em decorrência do mal de Parkinson, começam discussões acirradas para saber quem será o seu sucessor.

Do outro lado, o Japão se mostra um país atrasado tecnologicamente em relação a Alemanha. Um sinal evidente é o uso de aviões supersônicos em Nova York (os nazistas cruzam o atlântico utilizando algo parecido com “o pai” Concorde) enquanto os orientais ainda viajam majoritariamente de navio. Percebe-se uma tensão típica da Guerra Fria, sem agressões diretas.

O Homem do Castelo Alto - Tagomi

A esperança

Em uma realidade tão pessimista aos olhos de quem assiste, o raio de sol surge na forma de filmes em película que mostram um mundo diferente, um mundo em que os Aliados venceram a Segunda Guerra e a Alemanha Nazista e o Japão foram derrotados. Enquanto o regime nazista tenta interceptar esses filmes devido a sua natureza subversiva, eles são coletados por uma pessoa conhecida simplesmente como “O Homem do Castelo Alto”. Esses filmes acabam custando a vida de muitos inocentes, mas quem o assiste fica tão impressionado com a possibilidade de compartilhar aquelas imagens, aquela realidade de um mundo livre do nazismo, que pouco hesitam em colocar a própria vida em risco.

Personagens

O fio condutor da série é Juliana Crane (Alexa Davalos), uma praticante de Aikido que mostra como a cultura japonesa cobriu parte dos Estados Unidos. Sinal disso é a sua mãe, que mesmo criticando os japoneses, não deixa de assistir aos programas orientais na TV. Sua história começa quando ela entra em contato com um grupo rebelde através da sua irmã. Não é difícil se pegar questionando as decisões da personagem, mas quando isso acontecer, sugiro lembrar que o mundo em que ela vive é bem diferente do nosso.

O Homem do Castelo Alto - Juliana Crane

Juliana namora com Frank Fink (Rupert Evans), um artista que leva a vida em uma fábrica produzindo réplicas de armas americanas do pré-guerra – um verdadeiro fetiche dos japoneses mais abastados. Por conta de sua parceira, Frank acaba vivendo experiências indescritíveis nas mãos do Kempeitai (polícia secreta japonesa semelhante a Gestapo alemã). O triangulo amoroso é fechado com Joe Blake (Luke Kleintank), um agente nazista que tem a missão de desmantelar um grupo da resistência. Fiel ao regime, ele começa a questionar suas ações ao conhecer Juliana e assistir a um dos filmes.

Fora dos oprimidos, temos os agentes nos governos alemão e japonês. Do lado oriental, Nobusuke Tagome (Cary-Hiroyuki Tagawa – nosso eterno Shang-Tsung de Mortal Kombat) é o Ministro do Comércio, um homem amargurado pelo mundo em que vive, que de longe, percebe o perigo que o Japão corre com a iminente morte de Adolf Hitler e o início de uma nova guerra. Quando Tagome surge na tela, quase sempre em longas tomadas onde contempla formas de impedir o conflito, o personagem não precisa dizer uma única palavra, está tudo subentendido.

TMITHC 06

Agora, quando o Obergruppenführer (Líder de Grupo Senior) John Smith (Rufus Sewell) surge na tela, a coisa fica muito séria. Investigando a resistência em Nova York (utilizando Joe Blake), ele possui uma perspicácia e devoção para com o regime que impressionam. Seus olhos estão sempre tensos (ok, marca registrada do ator), o tempo todo procurando falhas e novas formas de manter o regime forte. É simplesmente incrível quando ele sai do uniforme e está no subúrbio com a família, seus olhos continuam tensos, fortalecendo os valores nazistas no conforto do seu lado. Ao final da temporada, é possível ver o seu lado humano, onde finalmente sente na pele toda a crueldade do Reich.

O Homem do Castelo Alto - John Smith

Experiência

Mesmo que utilizando o livro apenas como base, a série consegue acertar em muitos pontos. Toda a produção envolvida está muito competente, com Nova York e São Francisco representando muito bem cada um dos governos. Você fica convencido de que aquilo poderia ter acontecido – e parte da graça da série é exatamente essa. Vez ou outra fica visível o uso de computação gráfica, mas vale lembrar que na TV é mais fácil aceitar um cenário fantasioso do que algo mais próximo do real.

O elenco fez um trabalho excelente durante todos os dez episódios, com a direção seguindo o mesmo ritmo (mesmo com uma leve caída no meio da temporada). Não estranhe caso você esteja mais interessado nos grandes figurões Tagomi e Smith do que na história dos personagens urbanos. Foram eles que me carregaram até o fim da temporada – não que os outros sejam ruins, pelo contrário, mas para mim eles são o grande destaque.

O Homem do Castelo Alto - Canon City

O Homem do Castelo Alto: Veredito

O Homem do Castelo Alto é uma série que se destaca no mercado atual, graças a sensibilidade com que é conduzida. Repito aqui, não se vê personagens como Nobusuke Tagome e John Smith todos os dias. Frank Spotnitz (Arquivo X) junto de Ridley Scott, conseguiram entregar uma obra diferente do livro original, mas que aproveita cada gota para entregar entretenimento de qualidade. Além disso, a série é extremamente necessária nos dias de hoje. Nos faz pensar na forma como, sem perceber, podemos estar criando regimes como aqueles mostrados na tela. Governos que trabalham com opressão e crueldade, mas que acabamos lhes entregando nossa liberdade em troca de um falso sentimento de segurança. Ali, os oprimidos são os mocinhos, mas até mesmo os poderosos começam a questionar se aquele mundo realmente vale a pena.

O Homem do Castelo Alto - Juliana Crane

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Tags : AmazonAnálisePhilip K. DickSérie de TV
Thomaz Maioline

O autor Thomaz Maioline

Leitor de ficção cinetífica, hi-tech afficionado, fã de Seinfeld. Fanático com música, livros e quadrinhos. Caçador de barganhas.